A BRIGA DE CAPITÃO NASCIMENTO COM LUNGA DE BACURAU

Texto: Jorge de Barros. Arte da capa: André Oide

“Se vier que venha em paz!”

Diz a placa da estrada

no rumo de Bacurau,

pois fica logo avisada

a gente que, em geral,

tem, na conduta do mal,

a intenção norteada.


É bem sério esse aviso

e quem o ignorou,

volante, gringo ou cambada

bem cedo o demo levou,

com tiro, murro, facada,

em duelo ou em cilada,

de lá nunca mais voltou.


Mas se for na humildade,

vá e não fique cabreiro,

nada vai lhe acontecer,

pois é povo hospitaleiro;

o mais que pode lhe haver

é o escárnio sofrer

de Carranca, o violeiro.


Dj Urso toca o som

e comanda a alegria,

se da farra você for,

lá tem também putaria,

só não tem padre ou pastor...

água falta, sobra amor!

logo é rica a freguesia.


Acontece que a fama

daquele povo valente

varou além do sertão,

atravessou continente,

chegou até Washintão

e gelou o coração

de um tal Mister Presidente.

O galego arrepiado

logo levantou a crista,

berrando feito animal,

puxou do bolso uma lista

e, com um gesto fatal,

decretou que Bacurau

era grupo terrorista.


Mandou zap pra Brasília

exigindo repressão

e o nosso presidente,

filho e neto de cagão,

covarde de alta patente

mais ligeiro que repente,

disse: “sim, senhor, pois não!


Telefonou para o Rio,

pro Governador da Morte,

e passou logo a missão

de enviar para o norte

o Bope num caveirão

e o famoso Capitão,

pra chegar batendo forte.


“Missão dada é já cumprida”

diz Capitão Nascimento,

matador de traficante,

policial violento,

que vive o fado constante,

sem ter paz nenhum instante

em seu trabalho sangrento.


Partiu a tropa do Bope

pelo rumo do Sertão,

mas não foi a vez primeira

que se viu tal situação:

em que a verde bandeira

se revestiu de caveira

pra beber do sangue irmão.


Sem demora a notícia

chegou logo em Bacurau,

pois havia cobertura

do maior telejornal

que, na maior caradura,

apoiou a ditadura

em cadeia nacional.


Naquela noite, na praça,

se arrumou a resistência:

Domingas e Professor

fariam a assistência

e o povo, em seu favor,

responderia o horror

na língua da violência.


Foi logo o Bope chegando

que, na beira da estrada,

encontrou sete caveiras

em estacas perfuradas,

compostas de tal maneira

pra avisar a quem queira

que era guerra declarada.


Nascimento viu aquilo

e sorriu com ironia:

“Caveira é nosso brasão

morte é nossa companhia,

é boas vindas então

para a nossa divisão,

soldados, digam bom dia!”


Antes de entrar na cidade,

sugeriu o Zero Dois:

“Capitão, bora almoçar?

a gente invade depois”

Mas ele queria entrar

e tudo logo arrasar

antes do feijão com arroz.


E foi esse o grande erro

do polícia estrategista:

subestimar o inimigo,

ter certeza da conquista

e não procurar abrigo,

olhando pro próprio umbigo,

sendo demais otimista.


Ao entrarem na cidade,

estava tudo calado;

Capitão mandou soltar

rajadas pra todo lado,

querendo esculachar

e tentando apavorar

o povo ali entocado.


Nem uma palha mexeu

e pio nenhum foi ouvido,

mas um vento atravessado

aguçou outro sentido:

um cheirinho de guisado,

com tempero caprichado,

deixou o Bope aturdido.


Seguiram atrás do cheiro,

com a boca salivando;

acharam um caldeirão

com a carne cozinhando,

mas antes de “sim” ou “não”,

deu uma baita explosão

parte da tropa arrasando.


O Capitão Nascimento,

que era filho da sorte,

pulou antes da cilada,

evitando assim a morte;

com a poeira baixada,

ficou só de orelhada,

procurando algum suporte.


O povo logo surgiu,

de cabriola e pinote:

Dona Tânia e Damiano,

Teresa junto ao Pacote;

todos já comemorando

o bom sucesso do plano,

dançando xaxado e xote!


Mas Capitão Nascimento,

com outros sobreviventes,

refez sua estratégia

e atacou de repente,

com violência sem média,

promoveu uma tragédia,

sem poupar nem inocente.


Foi o maior tiroteio

da história de Bacurau;

morreu civil e soldado,

quem não correu se deu mal;

de tanto chumbo trocado,

tanto um como outro lado

ficou sem bala ao final.


Quando se ouviu o silêncio,

o Sol já estava deitando,

que do lado do horizonte,

Lunga foi se aproximando:

com seu estilo de afronte,

chegou erguendo a fronte

e o Capitão foi chamando:


“Capitão da farda preta

acabou-se a munição?

venha ver o resultado

da tua bela missão;

veja os mortos deste lado,

nenhum aqui é soldado,

todos filhos deste chão.”


O capitão carrancudo,

com sua boina de lado,

marchou pro meio da praça,

parou de peito estufado,

olhou pra Lunga e achou graça,

dizendo em tom de chalaça:

“Esse caboclo é viado!”


“Que coisa esquisita é essa?

Esse é o bandido terrível?

É homem, mulher ou bicha?

Como pode ser possível?

pinta a unha e passa lixa,

na roupinha ela capricha,

Eita, boneca sensível!”


“Bicha pra mim é elogio,”

disse Lunga sem piscar,

“Quero ver a sua cara,

quando eu te derrubar

e a sua fama cara,

depois que eu lhe der de vara,

vai cair, sumir, minguar!”


Ficaram se encarando,

então puxaram da faca;

Lunga, num rabo de arraia,

o capitão quase mata;

começou um cai não caia,

debaixo de coro e vaia,

cada um com sua bravata:


“Sou Capitão Nascimento,

herói dos homens de bem,

eu sigo a lei do estado,

mas só quando me convém:

sento o dedo e invado,

de helicóptero ou blindado,

e meus fãs dizem amém!”


“Sou Lunga do Bacurau,

não tenho medo de nada,

não tenho nenhum patrão,

não me escondo atrás de farda!

Sou a cadela do cão,

não tenho fã, tenho irmão!

Mato e morro é na dentada!”


A briga foi esquentando,

os dois já estavam feridos,

quando o capitão sentiu

um tuim nos seus ouvidos,

junto com um calafrio,

um medo nele surgiu,

confundindo seus sentidos.


“Você é só um bandido”,

berrou alto o Capitão,

“Paraíba da sua marca

já derrubei um milhão,

mas se você se entregar,

posso até te perdoar,

aceite a negociação!”


“Já tá me pedindo arrego?

Agora que eu me esquentei?

mas se quiser desistir,

minha condição darei:

basta só admitir,

sem tugir e nem mugir,

Que perdeu pra esta gay!”


“Quem você pensa que é?

Perdeu juízo e razão?

quando eu subo na favela,

eu deixo corpos no chão;

o sangue do povo gela,

quando me vê na viela!

Perco pra viado não!”


“Você é sombra eu sou Luz,

sou Lunga queer-cangaceiro,

bem servido e bem amado,

sei bem ser puta e guerreiro!

Melhor é ser bem viado,

que ser cachorro do estado,

alma seca, sem luzeiro!”


Nesse instante, deu moléstia

no famoso capitão;

caiu tremendo e suando,

de quatro patas no chão;

o povo foi se achegando

e a doutora examinando,

pra entender a situação.


Doutora Domingas era

dona de saber titânico

e disse assim, curto e grosso,

em um tom meio mecânico:

“O mal que aflige esse moço,

lhe causando esse alvoroço,

é a síndrome do pânico.”


“Esse povo da metrópole

não vive, apenas vegeta,

seu dia é cumprir tabela,

não tem vontade, tem meta;

infeliz, se descabela,

adoece e se estatela,

sofre com a alma inquieta.”


Deram água com açúcar

pro capitão melhorar;

Lunga lhe apontou o dedo

e disse: “pode chorar,

mas se lembre que esse medo

tem o mesmíssimo enredo

que o povo tu faz penar!”


Tiraram-lhe a farda preta

e a sacudiram no mato,

mas vendo a situação,

tiveram pena do fato;

o professor veio então,

explicar pro capitão

o seu derradeiro ato:


“Seu Nascimento, esse povo

é pobre mas é real,

também é gente quem nasce

nesta humilde Bacurau;

agora que nos conhece

diga se a gente merece

toda a carga do teu mal?”


“Vá-se embora, pegue a estrada,

atacar não vamos mais;

você não é o inimigo,

mas sim aquele que o traz;

leve a mensagem contigo:

Bacurau é chão amigo,

mas só pra quem vem em paz!”


Assim acabou-se a história

do famoso capitão;

não deu as caras no Rio,

dizem que foi pro Sertão,

mas ninguém lá nunca o viu,

decerto que ele sumiu...

Pronto, acabou, tem mais não!

***

Este cordel-fanfic foi realizado sem fins lucrativos.

Viva o cinema brasileiro, a cultura popular e a liberdade de expressão! E fogo nos fascistas!

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